Chocolate Amargo no Domingo de Pascoa


Era Domingo de Páscoa, então jamais vou esquecer aquele dia repleto de eventos que acabariam por mudar os rumos da minha vida. Eu olhava pela janela do automóvel enquanto o cenário ia mudando em alta velocidade trocando de cena a cada poste que passava sincronizado. Meus olhos estavam fixos, e aos poucos as imagens ficavam desfocadas me induzindo a uma sonolência incontrolável. Nessas condições a cabeça viaja no tempo e estimula pensamentos que normalmente não ousaríamos ter. Sentado neste banco do carro, dia de Páscoa, bem…… realmente isso ninguém merece. Queria mesmo era estar com meus filhos e rir ao vê-los lambusados de chocolate.A freada brusca me trouxe a realidade e quando percebi já estávamos à frente ao cemitério municipal. Havia muitos outros veículos, e igualmente foram estacionando do nosso lado, misturando-se as muitas pessoas que circulavam por entre eles. Aquela cena me deu um certo alívio, afinal não era somente eu que em plena Páscoa, e obrigatoriamente de terno, tinha que ir a um sepultamento. O silêncio era total, e mesmo diante de toda movimentação frente ao portão de entrada, podia-se ouvir claramente o cantar dos passáros que sentados no galho da paineira, pareciam entoar uma música triste. Particularmente não gosto de enterros, então procurei ficar no fim do cortejo e assim evitar ficar muito próximo dos lamentos e tristeza dos parentes do falecido, tendo em vista que me emociono facilmente. Depois que orações foram rezadas em coro juntamente com o pároco local, as pessoas lançavam flores na sepultura a medida que iam se dispersando em direção a saída que não se podia ver de onde estávamos, pois ficava atrás de algumas árvores floridas.
Esperei que todos se retirassem, e da mesma forma como entrei, discretamente segui em direção a saída enquanto pensava nas muitas estórias de vida que ali naquele local estavam sepultadas. Quando alcancei a saída, o portão estava fechado e dois homens estranhos vestindo capa e capuz, impediam aquelas pessoas de ganhar a rua. Sem compreender tamanha afronta, juntei-me aos gritos de protesto quando de repente um dos homens encapuzados gritou:
- Voltem aos seus lugares!!!…… Agora!!!
Indignado abri espaço com os cotovelos, e abordei o grandalhão exigindo que abrisse o portão, então ele deu uma gargalhada imensa e disse:
- Seja bem vindo ao reino do Exu Caveira!! Vá até o seu túmulo e sente-se lá, e aguarde até que seja chamado.
Não consigo imaginar quanto tempo se passou desde aquele Domingo de Páscoa, pois perdi a noção de tempo. A lembrança e saudade de minha família, por vezes quase me levou a loucura, mas continuo sentado aqui sob esta lápide, com meu terno impecável, sem compreender nada do que está acontecendo! Segundo os guardiões que controlam o portão, devo aguardar minha vez…… mas…… minha vez de que???
Laroiê, Exu Caveira
Por: Wilson de Omulu